LOHANA VÍTIMA DA TRANSFOBIA EM AQUIDABÃ‏ - Texto de Mário Leony - Delegado de Polícia

“... Bueno, lo que les estaba diciendo, que cuesta mucho ser auténtica, señora, y en estas cosas no hay que ser rácana, porque una es más auténtica cuanto más se parece a lo que ha soñado de si misma.” – Todo Sobre Mi Madre, Almodóvar, 1999.




Mais um episódio de transfobia, lamentavelmente em face da nossa querida Adriana Lohanna, perpetrado no último sábado, cinco de junho, na festa do "casamento do matuto", na sua cidade natal, Aquidabã.

Lohanna foi abordada por indivíduo ainda não identificado, que a desrespeitou ao levantar seu vestido e, em seguida, desferiu um soco que fraturou seu maxilar, devendo, em breve, ser submetida a procedimento cirúrgico.

O fato ocorreu na mesma noite em que centenas de lésbicas, gays, transgêneros e afins se divertiam numa big festa em Aracaju, algo que para qualquer desavisado pareceria que definitivamente o mundo é gay! Contudo, ao receber a triste notícia (também levei um soco, no estômago), ainda naquela madrugada, a ficha caiu e me dei conta que, em verdade, éramos uma boaiada, confinada não por cercas, mas por muros altos.

A boiada dentro do armário! e ai de quem ouse ultrapassar os limites da hipocrisia em Sergipe Del Rey... visibilidade?! continuamos cerceados, aviltados na expressão do nosso afeto, da nossa orientação sexual e identidade de gênero, marginalizados em guetos, e o pior, alienados na nossa ilusória liberdade.

Para quem não a conhece Lohanna é uma guerreira a romper estigmas. Acadêmica do curso de serviço social foi proibida de usar o banheiro feminino em uma universidade privada. Ajuizou, através do projeto balcão de direitos, numa parceria entre o Centro de Referência, a UNIDAS e a Defensoria Pública, ação com vistas ao reconhecimento do nome social no registro civil. Na audiência de instrução foi barrada em frente ao Fórum por um policial militar que entendia que seus trajes, um vestido longo, colar e brincos, não seriam apropriados à ocasião.

Apesar de todos os constragimentos, violências sofridas, apesar de todos os percalços, querida Lohanna, você já é uma vencedora, por conta de sua coragem e luta, notadamente por sua integridade e autenticidade, pois, reportando-me ao ponto alto da película do Almodóvar, "Tudo sobre minha mãe", no monólogo da personagem Agrado, “mais autêntico você é quanto mais parecido com o que sonhou para si”.

Isso nos diferencia de um ser inanimado ou irracional qualquer, a dimensão do humano e a capacidade de nos reinventarmos, desafio que deveria ser assumido por todos nós. Todavia, apesar do SUS contemplar a realização da readequação genital e todas as vitórias alcançadas por nosso movimento LGBT, ainda custa caro ser autêntico no nosso país. Custa ofensas à dignidade da pessoa humana e à vidas covardemente ceifadas.

Ficamos chocados com a iminência da aprovação de projeto de lei na Uganda, que criminaliza a conduta homossexual e prevê a condenação à pena de morte, mas esquecemos que somos os campeões de assassinatos, três homossexuais mortos a cada três dias no Brasil e ninguém se importa. O Haiti é aqui. Uganda também é aqui.



Aracaju, 07/06/2010



Mário Leony

Delegado da Polícia Civil – Aracaju/Se

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Seminário Sou Mulher, Sou Lésbica Sou Cidadã" Acontece em Aracaju.

CONFERÊNCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO: A reviravolta do sistema educacional racista, misógino e homofóbico?

Carta da Rede de Educação Cidadã - RECID